quinta-feira, 8 de março de 2012

Intertextualidade


A maneira mais simples de se explicar um intertexto é a relação de conversa entre dois textos distintos. Contudo, a intertextualidade só funciona quando o leitor tem o conhecimento dos dois textos distintos, um exemplo que podemos utilizar é o poema de Carlos Drummond de Andrade, Poema das sete faces, e suas releituras, como a música Até o Fim de Chico Buarque.
Segue abaixo os dois poemas:


Poema das sete faces
Quando nasci, um anjo torto 
desses que vivem na sombra 
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens 
que correm atrás de mulheres. 
A tarde talvez fosse azul, 
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas: 
pernas brancas pretas amarelas. 
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. 
Porém meus olhos 
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode 
é sério, simples e forte. 
Quase não conversa. 
Tem poucos, raros amigos 
o homem atrás dos óculos e do -bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste 
se sabias que eu não era Deus 
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo, 
se eu me chamasse Raimundo 
seria uma rima, não seria uma solução. 
Mundo mundo vasto mundo, 
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer 
mas essa lua 
mas esse conhaque 
botam a gente comovido como o diabo. 

Até o fim
Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
"inda" garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão , eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim
Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim
Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, a minha mula empacou
Mas vou até o fim
Não tem cigarro acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim ?
Eu já nem lembro "pronde" mesmo que eu vou
Mas vou até o fim
Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu estava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim



Podemos notar a intertextualidade principalmente no primeiro verso dos dois poemas, mesmo com algumas mudanças, vemos que Chico Buarque faz referencia ao poema de Drummond.
Drummond também já esteve na outra face da moeda, intertextualizando o poema de Manuel Bandeira, A balada das mulheres do sabonete Araxá, com seu poema Desemprego.
O intertexto está presente nas mais diversas obras humanas, sejam elas literárias, artísticas ou cinematográficas. Dentre as literárias podemos citar o grande romance de Umberto Eco, O Nome da Rosa, que é basicamente feito de intertextos, incluindo o nome do personagem principal, William de Baskerville, que faz referencia a Sherlock Holmes do romance, O cão dos Baskerville, escrito por Sir Arthur Conan Doyle. No campo artístico, um exemplo é a obra de Hiroshige recriada por Van Gogh como homenagem.

Figura 1 - À esquerda obra de Hiroshige, a direita a obra de Van Gogh

No cinema, podemos ver com maior freqüência e facilidade os intertextos, comédias com sátiras de outros filmes também são intertextos, dentre os filmes podemos citar a série Todo Mundo em Pânico (Scary Movie), Super Heroi (Superhero) e a trilogia Corra que a Polícia vem aí (Naked Gun).

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